Investida do governo Bolsonaro contra a cultura desfigura Sesc e Sesi

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O governo exigiu um corte compulsório de 30% no orçamento do Sistema S

Entre as guerras subterrâneas que o bolsonarismo dirige às expressões do espírito no Brasil, uma delas está eclodindo de forma ainda quase invisível ao olho público. Trata-se da investida do governo contra o chamado Sistema S (que inclui Sesc, Sesi, Senai, Senac, Sebrae e outras instituições ligadas às confederações patronais do País). Esse sistema possibilita o acesso a lazer, cultura, esporte, saúde, educação técnica e entretenimento para cerca de 12 milhões de pessoas.


O Sistema S possui, aproximadamente, 3,5 mil unidades no País, emprega mais de 150 mil pessoas e paga 8 bilhões de reais em salários. Ao fixar um corte compulsório de 30% no orçamento dessas instituições, que deverá vigorar a partir do próximo ano, o governo deflagrou um processo de encolhimento em cadeia nas suas atividades. Em todo o País, já começam a pipocar demissões de funcionários e cancelamento de programações.

Desativam-se unidades e contingenciam-se despesas. O aperto orçamentário atinge primeiramente os fornecedores, obrigados a negociar serviços com preços do ano passado.

Os cortes, segundo apurou Carta-Capital, não são lineares e atingem de forma diferenciada as várias instituições e unidades. Vão do enxugamento ao fechamento. Em Minas Gerais, no início do mês, uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais denunciou que houve fechamento de unidades em sete municípios da Zona da Mata e outras regiões do Estado (Teófilo Otoni, Almenara, Bom Despacho, Santos-Dumont, Juiz de Fora, Muriaé e Janaúba).

Receosos em relação a retaliações e também sem muita informação, num clima pantanoso, os dirigentes das instituições evitam falar abertamente sobre os recuos. “Além do corte de pessoal, que teve como prioridade os que trabalhavam há mais tempo, os programas também sofreram reajustes”, informou uma fonte do Sesc do Rio de Janeiro. “Todos foram convocados a refazer orçamentos, e existe um clima de autocensura por conta das indicações do novo governo, que se alinham com a cultura neopentecostal.”

O governo exigiu um corte compulsório de 30% no orçamento do Sistema S

Os indícios de que esteja havendo um processo de afinação com o ideário bolsonarista tornam ainda mais alarmante o cenário. A sanha moralista e amante da censura pode macular a reputação de instituições que têm se configurado em anos recentes como refúgios da liberdade de expressão. No dia 30 de agosto, a artista trans Luh Maza denunciou, em sua página no Facebook, um ato de censura de que teria sido vítima no Sesc. Segundo Luh, o espetáculo que criou, o Queerbaret, um show multimídia com 20 artistas das artes circenses e musicais, faria sua estreia em outubro no Sesc Avenida Paulista. Mas ela foi informada que tinha sido cancelado.

“Foi retirado da programação após a conclusão das negociações e da confirmação por escrito da aprovação”, contou Luh. O Sesc, segundo ela, argumentou que o valor elevado do orçamento da atividade inviabilizava sua montagem, mas a diretora disse que não houve qualquer tentativa de negociação de valores. Ela crê que o motivo, não declarado, foi de fato a temática. A diretora e atriz diz que um dos interlocutores do Sesc chegou a lhe sugerir que mudasse o nome do espetáculo (queer é um termo que define pessoas fora do modelo tradicional de orientação sexual ou identidade de gênero) durante uma conversa. “É uma pena. A gente entende que eles estão em risco, que o Sistema S também está sendo ameaçado por este governo, mas é um retrocesso, é um recuo”, contou Luh, acrescentando que recebeu uma mensagem de um diretor, 20 dias depois, para uma conversa, que ainda não aconteceu.

Alguns programadores das instituições dizem, reservadamente, que há de fato orientações para que se mude o perfil das atrações, evitando-se os temas mais polêmicos. É um nome polido para censura. A programação dessa nova ordem deverá ser centrada no grupo social conhecido como nem-nem (jovens entre 15 e 29 anos que nem trabalham nem estudam). Isso já é um objetivo hoje, mas a excelência da programação e o respeito às diversas formas de expressão sempre foram o principal substrato.

Embora os cortes ainda não tenham atingido todo o complexo, o efeito de que um trator obscurantista vai passar pelo sistema foi imediato. “Estamos evitando os apoios externos nos quais, hora ou outra, entrávamos como parceiros”, disse uma programadora de uma instituição do Nordeste. “Acabei de chegar de um encontro nacional e de fato estão todos cautelosos, sim. É possível vários ajustes financeiros pelo País, sim, está posto para todos nós. Claro que vamos também aprender outra dinâmica de trabalho, inclusive indo buscar parcerias para unir as forças. E, claro, continuar com o trabalho, mas estamos vivendo um tempo muito obscuro e precisamos nos manter firmes, confiando nos nossos propósitos.”

Os programadores são orientados a evitar polêmicas, um nome polido para censura

“Nossa atuação no Rio Grande do Sul poderá ser prejudicada, mas não iremos parar: o desafio será fazer mais com menos”, afirmou o presidente da Fecomercio-RS, Luiz Carlos Bohn, em entrevista ao Jornal do Comércio. O dirigente ponderou que “é precipitado prever o que vai acontecer” caso os recursos sejam cortados.

Nem o Sesc mais elogiado do País, o de São Paulo, passou incólume pela onda de retração. O programa de expansão, que recentemente dotou a capital de unidades moderníssimas, como o Sesc Avenida Paulista, o Sesc 24 de Maio e o Sesc Guarulhos, perde fôlego. O crescimento (são 41 unidades já estabelecidas), que incluía a construção de uma unidade de 23 mil metros quadrados na cidade de Limeira ainda este ano, deve ser encostado. Outro projeto, na cidade de Franca, também entra em modo de espera, assim como unidades na capital, uma na Brasilândia (Zona Norte) e outra na Zona Leste.

Formalmente, as instituições devem anunciar um incremento de atividades nas ações formativas, deixando de lado os investimentos em espetáculos, shows e exposições. É uma tentativa de diminuir os atritos com a corte bolsonarista.


O corte no Sistema S ocorre por iniciativa do ministro da Economia, Paulo Guedes, que vem se empenhando nessa ação desde antes da eleição de 2018. Os cursos profissionalizantes do Senai atingiram 2,3 milhões de matrículas no ano passado. No Sesi, 1,2 milhão de alunos cursam a educação básica, e as unidades do Sesc têm 4,6 milhões de beneficiários. O refluxo preventivo das entidades do Sistema S é inexplicável, já que as instituições possuem uma reserva admirável de recursos. Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, de 2017, o saldo de caixa detido por Sesc, Senac, Sesi, Senai e Sebrae, ao fim de 2016, era de 17,4 bilhões de reais. “Entre as companhias abertas não financeiras do País, apenas a Petrobras tinha um caixa acima desse valor na mesma data, de 69 bilhões de reais – a Vale era a segunda, com 13,8 bilhões de reais.” A atitude de recolhimento de empresários e industriais sugere um realismo de adaptação, mais do que uma necessidade real.

 

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